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Impaciência Crónica

Crónicas quinzenais sobre temas diversos e profundos, mas mais pró leve.

Impaciência Crónica

Crónicas quinzenais sobre temas diversos e profundos, mas mais pró leve.

O Calendário dos bons momentos

Tms, 15.01.24

Há uns anos atrás, depois de um problema de saúde, tive uma depressão. 

Afastei-me dos amigos, saí do emprego onde estava e tinha muitos dias em que nem conseguia arranjar coragem para sair de casa. Sentia-me completamente perdido, impotente e (claro, o clássico) sentia-me mal por me sentir tão mal, como se não tivesse direito a tal.

Foram tempos difíceis e confusos, não só para mim mas também, reconheço, para todos próximos de mim. Andava com os nervos à flor da pele, com o coração na boca, e a minha família não sabia, muitas vezes, como iria reagir quando me abordava. Sinceramente, nem eu.

Felizmente isso não os demovia nas suas tentativas de me alegrarem. A minha namorada, com quem já vivia na altura, tinha sempre planos para me tirar de casa. Eram passeios, comer fora, cinema, etc... E resultava! Até ao dia seguinte, pelo menos... A depressão era rápida a apagar não só a pouca alegria até aí obtida, como também a memória desses eventos, deixando-me a olhar para trás e ver apenas uma névoa de desânimo. 

Foi então que decidi criar aquilo a que chamei "O Calendário dos Bons Momentos"!

Arranjei um calendário, daqueles com "casinhas", e comecei a pintar de cor viva  o quadrado correspondente a cada dia em que houvesse algo que me animasse: um lanche fora, encontrar um amigo, o que fosse. Se sentisse que algo, naquele dia, me tinha trazido um pouco de alegria, pintava o quadrado (e escrevia uma ou duas palavras para ajudar a lembrar o momento).

Semana após semana, o calendário começou a ficar cada vez mais colorido, relembrando-me diariamente dos bons momentos passados e dando-me esperança de que haveriam muitos mais no meu futuro.

Anos depois, e depois de muita psicoterapia, posso dizer que tenho mais dias bons do que maus. A quem se rever neste texto: não hesitem em pedir ajuda profisional, é um processo difícil e moroso, mas as coisas melhoram.

Vemo-nos por aqui.

 

Esta será, provavelmente, a minha última crónica.

Tms, 01.01.24

E é uma pena, porque também é a minha primeira crónica e até acho que isto, com alguma prática, tinha potencial para ser giro. Este não é um caso de "os últimos são os primeiros" ou vice-versa, mas um reflexo da minha falta de auto-confiança.

Há uns anos surgiu-me a ideia (extremamente original) de escrever sobre temas diversos e profundos, tais como - inserir lista de temas diversos e profundos, mas mais pró leve - e comecei a apontar notas no meu caderno, decidi-me por um nome... mas também rapidamente começaram a surgir dúvidas e receios.

Conseguiria eu escrever algo de interesse ou, no mínimo, que entretivesse? Se sim, conseguiria fazê-lo regularmente, com ideias frescas ou, há falta de melhor, à temperatura ambiente? Mas quem é que ainda lê blogs?.. Estas dúvidas que, durante tanto tempo, me impediram de começar este blog, persistem ainda hoje.

Acredito que sejam pensamentos comuns e transversais a várias áreas da vida. Quantas vezes não desistimos antes de começar, demovidos pelas dúvidas e receios que insistem e persistem. Medo de falhar, medo de nos expormos ao ridiculo... No fundo, medo de demonstrar vulnerabilidade e sairmos magoados. 

Neste caso, e apesar de tudo, persiste também a vontade de escrever, por isso... aqui estou eu! (gritou ele ao mundo, que respondeu com uma indiferença ensurdecedora.)

Que esta seja a minha última crónica no sentido de que é a mais recente.

Vemos-nos por aqui.